hiAto


"E se minha espada cortar ao meio um homem,
amigo ou inimigo, leal ou traidor, mais que sua carne,
seu espírito em dois ficará partido e, em sua próxima encarnação
e na seguinte, esse homem há de lutar sem descanso contra si mesmo
e terá em sua própria essência e em seu reflexo
a encarnação de seu pior inimigo."


Abusaki-Tikoruto Numei, xogum.
Japão, 1327, era Kakamura.
Abilio Marcondes de Godoy tem fios ruivos na barba. No princípio da década de 1980, foi forjado numa caldeira da Companhia Siderúrgica Nacional. Alimentaram-no com o leite gordo das vacas do Vale do Paraíba. Freqüentou estábulos e inalou a fumaça da megalópole, onde estudou literatura. Hoje em dia, prefere dormir de costas e se irrita quando apertam no meio seu tubo de pasta-de-dentes.

Quinta-feira, Janeiro 29, 2009

Em silêncio


Na noite em que arrancou a própria língua, eu soube que ela era perfeita. No carro, a caminho do hospital, nossas mãos ensangüentadas se apertavam com tanta força que as pontas dos dedos latejavam em silêncio. Quando voltamos para casa, o alicate e a tesoura ainda estavam sobre a pia. Um pedaço pontudo de carne na água vermelha do vaso. Ela desmaiou antes de dar a descarga. Não sei como pôde suportar a dor. Sei que foi por minha causa. Tendo mantido a própria língua, senti vontade de dizer obrigada. Não disse. O seu silêncio me seduziu. Não achei mais o caminho da rua, nem encontrei, no dicionário, nenhuma palavra que me salvasse. Emudeci. Perdida nas sendas escuras que sobraram no vazio da sua boca aleijada. O seu silêncio é um cárcere. O aço surdo da jaula mantém os medos do lado de fora e contém os meus impulsos destrutivos. Nas horas mais lentas do dia, distraio-me com as curvas do seu corpo. E, quando dormimos abraçadas, em silêncio eu sonho com outras mulheres.

Quinta-feira, Novembro 27, 2008

Dois contos femininos.

Os dois últimos contos que escrevi têm narradores femininos. Exponho-os aqui e espero a opinião de vocês, sobretudo a das meninas, sobre a sustentabilidade dos meus narradores mulheres.

Glúteos
(publicado na revista Cult há uns meses, na edição de julho se não me engano)




Ele responde que todo brinquedo tem o direito de ser inútil. Não sei o que quer dizer, mas a resposta me magoa. Vontade de chorar. Demoro um tempo para entender que foi um sonho. 5h47. Só três minutos. Não vale a pena ficar aqui.


Começo a me trocar. Frio. O sonho ainda se mistura. Com o alívio do choro, a culpa de se entregar. Uma fraca. Lá fora, as pessoas têm problemas. Sempre tanta coisa triste no hospital. Meu analista acha que não passo de uma histérica. Fala comigo olhando para as minhas pernas. Todo brinquedo tem o direito de ser inútil. Escrevo várias vezes numa folha de papel.


Sobre a esteira, o mundo fica mais simples. A partir de determinada freqüência cardíaca, o presente é mais presente. Preciso superar a culpa. É o que o analista espera de mim. Remorso por pensamentos malignos é sinal de infantilidade. Os primeiros olhos do dia me tiram de mim mesma. O instrutor dá um tapa nos meus glúteos. Sente mais orgulho deles do que eu. Fui eu que fiz essa escultura: você está a cada dia mais gostosa. Sinto meu rosto pegando fogo. Sei o quanto de desejo reprimido há por trás da brincadeira. Ensaio um sorriso tímido. Acho que dói mais nele do que em mim.


Quando termino o último ponto, a garota me pergunta se vai ficar uma cicatriz. Faço que sim com a cabeça. Ela chora. Só uma marquinha. Não é isso: me sinto burra pelo que aconteceu. Sorrio: você sabe guardar segredo? Abro alguns botões da minha blusa e mostro o nome tatuado. Pisco o olho e bato com a mão espalmada na própria testa. Rimos juntas por algum tempo.


Claro que sim. Afinal, o que eu não faria por você? A pele enrugada dos seus dedos desliza sobre minha bochecha num carinho paternal. Você vai ser uma grande cirurgiã. Vontade de abraçá-lo. Obrigada, doutor. O senhor não vai se arrepender. Viro-me e sinto os dedos dele me beliscando. Sorrio constrangida. Meus olhos se enchem de lágrimas.


No dia do acidente, ele me disse que estava cansado dos meus ciúmes e das minhas cobranças. Para me fazer chorar, disse que ainda me amava. Quero que você morra, foi a minha resposta. A última coisa que eu disse antes que ele vestisse o capacete e saísse batendo a porta.


Quando eu fizer trinta anos, metade dos homens vai parar de olhar para mim. Não adianta fazer essa cara. Você sabe que é verdade. Não importa. Talvez signifique alguma liberdade. Não se preocupe: não sou hipócrita. Não vou fingir que não tenho medo. Casar não resolve nada. O único plano de fuga é morrer antes dos trinta.


Um perfeito cavalheiro. O que não quer dizer que não seja um babaca. Ao fundo, o som monótono do piano. Aparecer com flores, abrir a porta, puxar a cadeira, pagar, usar camisinha. Ele domina o protocolo – não esconde a ansiedade de me vencer. Quanto mais perfeitos eles se mostram, quanto melhor é sua técnica, maior é a vontade que sinto de dizer não. Os dedos do pianista tropeçam numa tecla equivocada. A dissonância me lembra o ruído dos freios do caminhão. Minhas mãos se afastam da dele. Meu olhar desencoraja a insistência. Todo brinquedo tem o direito de ser inútil. O analista tem razão: eu não passo de uma histérica.




Colheita





Outra vez. Os pássaros descansam do sol sob a sombra dos espantalhos. O estômago cheio de suor e uma ou outra gota do sangue que escorreu dos lábios dos mosquitos ou que brotou de um dos muitos cortes na minha pele. Os pássaros esperaram a vulnerabilidade do meu sono. Derramaram-se das nuvens enquanto eu sonhava com a terra, com a prosperidade da colheita. Nos minutos em que eu dormia, abocanharam meses inteiros de sofrimento.


Sob a sombra dos espantalhos, os pássaros me sorriem. Seu sorriso satisfeito se confunde com o grasnar condescendente da enfermeira. Hora de acordar numa cama de hospital. Ou quase isso. O médico entra no quarto para me dizer que tudo correu bem, que já posso ir embora. Levo as mãos ao abdome, procurando algum indício. A madeira do meu ventre faz um barulho de coisa oca.


Outra vez. Os mesmos pesadelos. A mesma claridade que invade o quarto convocando-me à vigília. São muitos os despertares entre as camadas de sonho que atravesso. O lençol sobre o meu rosto é a última úmida fronteira. É uma placenta. Ouço o ruído do trânsito nas avenidas. A cidade não vacila. Hesito. Entrecortados, os sons que chegam ao meu ouvido não fazem o menor sentido.


A água fria do chuveiro arrasta para o ralo o suor dos pesadelos e a parte de mim mesma que morreu durante a noite. Traída por nuvens que choveram a fome. Não, a água do chuveiro não adianta. Não pode me limpar por dentro minhas manchas mais escuras. Há dias, noite após noite, os mesmos sonhos. As nuvens verteram pássaros e os pássaros destruíram tudo. O médico me cumprimenta pelo sucesso do aborto. Por fora dos lençóis, no lixo do banheiro, o exame de gravidez ainda é negativo.


No elevador, o toque ávido dos olhos vizinhos arrepia a minha pele. Nenhuma palavra atrevida, nem a coragem de um gesto obsceno. Homens, sempre tão passivos. Quando nos separamos de vez, tentei devolver a aliança. Ele me pediu que a guardasse. Não sei por que acedi. Eu ainda te amo, foi o que ele me disse. Não agüento mais o que temos feito um ao outro. Por dias imaginei sua reação ao telefone, quando eu ligasse para dizer que estava grávida. Lute, seu canalha. Cresça. Até quando vai fugir das escolhas e dos compromissos? Até quando esse menino mimado incapaz de aceitar que o mundo não é o seu parquinho nem as pessoas os seus brinquedos? Nada disso eu disse. A menstruação atrasada é uma piada dos hormônios. Hilário, no lixo do banheiro, o exame de gravidez ainda é negativo.


Você está mais azeda do que de costume. Aconteceu alguma coisa? Homens, sempre tão racionais. Causa e efeito, causa-e-efeito. Por que ele acha que eu preciso de um motivo? Não percebe que sou um absurdo injustificável? Não, não aconteceu nada. Nem nada que acontecesse mudaria coisa alguma. Juro que me esforço. Não sei por que continuo vivendo. Sua menstruação ainda está atrasada? Como se lhe importasse. Sabe que o filho não seria dele. Ainda sofrendo pelo seu ex-noivo? Essa, sim, a pergunta. Não porque se preocupe e menos por legítimo ciúme do que por vaidade. Ele se levanta: vou fazer um chá. Sozinha na cama, minha vontade era dormir de vez.


Minutos depois, ele chega com a bandeja. Quantas colheres de açúcar? Uma só. Ele coloca duas. Uma colher é muito pouco. Inconformada, recebo a xícara. Ele ignora minha indignação. Engulo a bebida sem prestar atenção ao gosto. Limpo com a mão o pouco de amargura que escorreu pelo meu queixo. Não é decepção. É apenas tédio. Levanto-me. Visto minhas roupas. Caminho até a porta. Ele assiste a tudo imóvel. Tão passivos. Do lado de fora, só a morte é para sempre.


Houve um tempo em que eu quis ver algo de trágico, algo de belo na entropia – hoje já não confio nas palavras. A poluição secou o que tinha de vontade na minha garganta. Bandidos levaram à força as frases feitas do meu bolso. Do lado de fora, a cidade existe sem pares de adjetivos, sem a cadência sonora dos advérbios em mente. A indiferença é uma fumaça se espalhando. Do lado de fora, passantes ignoram adolescentes que, com cartazes, mendigam abraços gratuitos. Adjetivos morrem sozinhos em cada esquina que atravesso. Ombro-a-ombro com os golpistas da calçada, todos os advérbios que encontro mentem. Cansada, com os olhos vermelhos de sono, espero mais um despertar.


Foi a última vez. No ano que se seguiu ao riso metálico da enfermeira, os pássaros não faltaram ao banquete. Fingindo-me de morta – o sangue por fim correu entre minhas pernas – deixei que devorassem todo o trigo da colheita. Quando então me levantei, os pássaros estavam satisfeitos. Demasiado gordos, já não decolavam estúpidos do chão. Com a minha foice erguida para as nuvens, dancei em volta deles toda a celebração do meu ódio. Os pássaros me olharam com medo. O sangue nos meus joelhos não lhes deixava nenhuma esperança. Nada. Nenhuma metáfora eterna – entre o começo e o fim do tempo – seria eterna o suficiente para me fazer voltar a dormir.

Domingo, Setembro 21, 2008

Limoges


Não há tempo a perder com antidepressivos. A poucos minutos do fim, elas trabalham. Desperto com o coração acelerado, despedaçado por formigas. Deitado, de olhos fechados, eu as vejo subindo pelas paredes do quarto. Quietas. Resolutas. Tomando conta da cama, acumulando-se sob mim. Aos poucos, elas me cobrem. Invadem-me por todos os orifícios e eu me desmancho em milhares de pequenos pedaços, que se separam coreografados, rumo a um formigueiro distante.

É suíço. Ele examina o relógio devagar. O preferido do meu pai, o mais valioso da coleção. Seus olhos algébricos procuram os meus, depois se fixam na garrafa de vodca nas minhas mãos: você não devia vender. Não preciso de relógio: não tenho pressa. Esse relógio foi do seu tataravô, está com a sua família há décadas. Agora está com a sua. Sigo-o até o cofre. Ele começa a contar o dinheiro. Sorrio. Quem sabe o que prometem as drogas do futuro, hein? Ele me olha sem compreender. Dou de ombros: torce para o seu tataraneto não vender.

Nada além da fome coletiva e o instinto cego que as direciona. Nada além do formigueiro e suas imediações. A proximidade do cometa, a destruição iminente de todo o planeta não mudam nada. A concretude do fim é indiferente. Não há medo, nem urgência. Não existe dúvida, nem alternativa. Motivos não se fazem nunca necessários.

Sonhei mais uma vez com as formigas. Elas despedaçavam, metódicas, a carcaça do meu pai. Com olhos inquietos, ela me segue pelo quarto enquanto tento dissipar o pânico com frases desconexas. Você parou de tomar os remédios de novo? Eu só queria um lugar seguro, onde eu pudesse me esconder do tempo. Um plano de fuga. Assim vou ter que ligar para o seu psiquiatra. Minha testa marca, contra os azulejos do banheiro, as batidas do meu coração. Um filete de sangue escorre por entre meus olhos. Estou cansado de ter que sempre reinventar tudo. Vejo lágrimas no seu rosto. É triste o quanto você é obsessivo, o quanto não se deixa nunca em paz. Quase me enterneço. Queria era esmagar o crânio dela na parede. Fica longe. Não põe a mão em mim. As formigas estão me comendo. Vão te comer também. Não tem formiga nenhuma. Você está ficando confuso. Não, eu estou bem. Já sei que não vou morrer agora. Que tudo isso vai passar daqui a pouco. Que amanhã vou precisar de você outra vez. É tarde para chorar para o analista. Antes de morrer, meu pai me disse que eu estava perdendo os melhores anos da minha vida. Eu nunca disse nada: para mim, a vida dele toda tinha sido um desperdício. Sento-me diante da privada e vomito a bílis que sobrou no fígado. Um desperdício. Ela acaricia o meu cabelo. Já disse para não pôr a mão em mim.

Belíssima sopeira. Os olhos dele brilham. Original de Limoges. Porcelana de qualidade superior. Não sabia que seu pai também colecionava. Quanto você quer por ela? Queria mesmo era fazê-lo engolir os estilhaços que se espalham pelo chão. Nada. Não quero nada. Essa fica de presente. Quando a porcelana se despedaça contra a parede, vejo o terror no seu rosto apodrecido. Ele cai de joelhos. Só um velho no fim das contas. Trêmulos, seus dedos passeiam sobre os cacos. Sua voz é quase um soluço. Por quê? Para que você fez isso? Não tenho muita certeza. Algumas coisas eu faço por fazer; outras nem por isso. Se tivermos tido sorte – muita sorte mesmo – o que eu fiz foi poesia.

Muitos praquês e poucos porquês, dizia o analista. As formigas não perdem tempo com perguntas. Na falta de saída, resta a embriaguez. Diante da morte elas carregam pesos enormes. Não é sempre que consigo levantar do chão minha própria consciência. Nos dias normais me arrasto. Nos ruins deixo-me estar. Em quase todos me sinto muito sozinho. Não, as formigas não têm crânio, nem rostos apodrecidos. Gosto é do barulhinho que elas fazem quando as esmago com meu sapato.

Sexta-feira, Junho 20, 2008

Frio




O nome dele é Quinze. Nas vezes em que por distração me enterneço e o acaricio, ele me envolve com o peso de suas patas, apertando-me até me sufocar. É preciso paciência para suportar seu abraço. Ficar imóvel e respirar pouco até que ele enjoe e relaxe os músculos. Enquanto ele não me solta, seus pelos longos entram em minhas narinas e me obrigam a fechar os olhos.

Quando os abro outra vez, não vejo mais o Quinze. Ele pertence à vida de olhos fechados. Aqui fora, só o edredom me envolve e me protege do frio que me mantém no sofá. Ouço a oitenta e sete me chamando do quarto. O frio me amolece por fora e o Quinze me imobiliza por dentro. Doze horas. Em média, é o que durmo num dia. Metade do tempo sou; a outra metade sonho.

Quanto ao espaço, não gosto de dividir minha cama. A vida de olhos fechados deve ser como a morte: não se compartilha. Enquanto oitenta e sete dorme, escapo do arame de braços e pernas. Fujo para o sofá. Tive um pesadelo com números outra vez. Por algum motivo, as mulheres se ofendem de manhã, quando dão por minha falta. Sonhar, para mim, é coisa séria. Volto para a cama constrangido. Murmuro uma desculpa qualquer. Oitenta e sete dá de ombros e me puxa sobre si.

A indiferença dos algarismos sempre me assustou. Ou talvez fosse só a certeza de que mais uma vez a professora de matemática nos colocaria em dupla. Eu não gostava. Ficar meia hora sentado ao lado de uma menina bonita me dava dor de barriga. Não acontece mais – ainda fico nervoso. O Quinze, quando me vê assim, chora de tanto rir.
Há mais de dez anos que sonho com ele. Numa das primeiras vezes, me disse que seu nome era 15738954223890758900765345877. Não quero saber o seu nome. Quero saber quem é você. Será mesmo que você não entende, garoto? Eu sou uma equipe. Pode me chamar de Quinze.
Quando você for mais velho, você vai numerá-las.

Ela é a número oitenta e sete. Já coleciono faz alguns anos. Que apartamento bonito. É dos meus pais. Eles moram aqui? Às vezes moram. Como assim? Deixa para lá; eles não estão aqui hoje. Onde é o banheiro? Enquanto isso, ligar a câmera. Foi o Quinze que me deu a idéia. Pego uma folha em branco na gaveta e, com uma canetinha azul, desenho com capricho um oito redondinho e um sete todo esbelto. Seguro a folha na frente da câmera por uns segundos. Oitenta e sete sai do banheiro. Estamos prontos para a cena.

A menina da aula de matemática tinha um nome, que – embora eu nunca tenha transformado em número – eu esqueci. Tenho a impressão de que era um conjunto bonito de sons. Eu pensava que não gostava dela – depois descobri que gostava. Quanto mais me dava conta, mais violentas ficavam as cólicas. Não conseguia terminar os exercícios. Pedia para ir ao banheiro. A professora não deixava. Tirei oito e meio numa prova e chorei na frente de todo mundo. Num impulso agressivo e esquisito, ainda com lágrimas descendo pelo rosto, perguntei quanto ela tinha tirado. Nove. Tomei a sua prova. Mentira. Tinha tirado dez. Quando vi o rosto dela enrubescer, achei que ela também gostava de mim. São raros os momentos em que me enterneço – é quando o Quinze me sufoca.

Às vezes tenho medo. A voz do Quinze reverbera com muita força. É difícil dizer não. Uma noite, ele me pediu para matar. Não. É você que não entende. Você é gigantesco. Não é o absoluto, não é o infinito. Não – eu sou uma equipe. Vai ficar bonito o sangue dela no lençol. Uma boa cena. Em inglês, chamam de snuff movie. Com uma faca bem comprida. Quero que você a escolha bem.

O escuro das casas noturnas dificulta a seleção do que, nos filmes, vai aparecer com a luz. Beber seria um erro. A cada um dos flashes da lâmpada estroboscópica, é preciso examinar os detalhes com cuidado. Inúmeras candidatas ao número oitenta e sete. O mais difícil é convencê-las a irem comigo para casa. Têm medo de psicopatas. Como sua mão é quente. É... sou o contrário do ditado: a vida me virou do avesso. Não entendi. Foge comigo. Oi? Foge comigo. Para onde? Não importa. Você é louco. Vem, vamos embora daqui.

Vamos embora, vem. Foge comigo. Com um pé já na grade da escola ela se preparava para o pulo e me estendia a mão ao mesmo tempo. Tive medo. Meus intestinos gritavam. Anda seu bobo. Mas vão nos expulsar. Expulsam nada. Anda logo, foge comigo. Eu tenho que ir ao banheiro. Ela saltou a grade e desapareceu pela rua. Do lado de dentro, eu podia senti-lo afiando as garras.

O nome dele é Quinze e por vezes penso que ele é o frio. Não o frio do ar, nem o frio da lâmina – o frio de dentro. É o nome que dou – não faz diferença – para essa solidão que me separa das pessoas. Essa tendência que os outros têm de me machucar e de querer que eu os machuque. O nome dele é Quinze e ele se alimenta do meu medo, dos momentos que escolho não viver.

No carro, a caminho de casa, planejo os detalhes da cena. Escuro ainda. Poucos automóveis na avenida. Preciso arrumar uma claquete de verdade. Algumas pessoas já aguardam, nos pontos, o ônibus que as levará ao trabalho. No rádio, a música diz que é melhor ser dono de um coração solitário do que de um coração partido. A oitenta e sete me conta toda a sua vida. Espero que ela esteja usando uma calcinha interessante.

Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008

Tac8


Um plano de fuga. A agulha perfura a minha pele e, enquanto a dor se espalha, só consigo pensar no quanto preciso de um plano de fuga. Ainda ontem, perdi uma partida ganha por falta de um. Tivesse jogado a torre de f para c8 e o meu rei teria uma casa para escapar do ataque branco na ala esquerda. Então meu ataque na ala da dama seria definitivo. Em vez disso, joguei a torre de a para c8 e o meu adversário me derrotou em poucos lances.

Um plano de fuga. Preciso com freqüência de um, porque tenho o costume de adiar as decisões e não são raras as vezes em que sou obrigado a me evadir às pressas, com as coisas explodindo nas minhas costas. Como naquela noite no sofá.

É bom ter um plano de fuga. Uma casa desocupada para um rei em xeque. Sempre um objeto novo para as migrações compulsórias do desejo. Sou assim um tanto claustrofóbico. Procuro saídas para as coisas. Uma boa desculpa para abandonar o emprego, um defeito qualquer no rosto que, do contrário, ameaça ser perfeito.

No sofá, eu dizia. Dividido entre duas garotas. À esquerda, uma não muito bonita com cara de apaixonada. À direita, uma linda com cara de histérica-louca-para-me-dar-um-fora.
Já te disse que foi meu pai quem me ensinou a jogar? Eu ainda era criança. A gente jogava todo domingo. Eu perdia. Minha mãe dizia pra ele me deixar ganhar. Ele não deixava.
Pois é. E no que diz respeito a ela, preciso traçar com urgência um plano de fuga. Continuo jogando a torre de a para c8, comprometido apenas com a vitória rápida, que parece cada vez mais inverossímil.

A agulha perfura meu pescoço repetidas vezes. No sofá de um apartamento, no banco traseiro de um carro, na cama de um motel, um falo alheio a penetra.

Será mesmo possível que ela gema com a minha dor e o esperma de outro se transforme em tinta, gravando o nome dela sob a minha pele? Tenho medo dessas perguntas. Não que elas sejam cruciais. É que pensar nelas costuma me deixar enjoado. Enquanto isso, adio o momento de fugir e o cerco se fecha. Daqui a pouco, começam as explosões.

Aquela coisa. Quando a noite nos esconde, a festa continua. Depois de um tempo, indeciso no sofá, a menina da esquerda se levanta e sai da sala. Em algumas ocasiões prefiro deixar que a vida se decida sozinha. A garota linda me sorri. Eu também sorrio para ela. Sim, é possível colocar todas as fichas na mesa. Só que encerradas as apostas, gosto de ter no bolso o dinheiro do ônibus para voltar para casa.

Você deve gostar muito dela. É o comentário constrangido do tatuador quando me vê entrar pela terceira vez no estúdio. Me perturbou um pouco, só porque tenho a mania de escutar o que as pessoas dizem como se elas as estivessem dizendo de verdade. Talvez você devesse procurar ajuda. Isso eu não sei se ele disse. Às vezes, escuto melhor os outros quando permanecem em silêncio. Foi então que eu disse a ele que precisava de um plano de fuga. Assim, por dizer. Porque, para mim, um par de ouvidos é igual a qualquer outro e a maior parte das coisas que digo não tem muito propósito ou coerência.

Noite de domingo. Oposto ao meu pai pelo tabuleiro, os olhos vidrados nas peças, eu o vejo cometer um erro. Sinto uma coisa estranha. Uma espécie de náusea. Com a mão tremendo, sacrifico meu cavalo. Dois lances depois, pronuncio as duas palavras. Meu velho se levanta sem dizer nada, me olhando no fundo dos olhos. Vira as costas e deixa a sala.

Você acredita em vodu? Se eu colocasse fogo em mim mesmo, você acha que ela sentiria a dor do nome dela se queimando? Talvez não. Talvez no exato momento alguém a faça gozar um orgasmo extremo. Não há poesia alguma nessas coisas. Ele permanece em silêncio. Deve pensar que sou maluco. Tenho vontade de perguntar se ele acha mesmo que eu sou maluco. Por sorte, percebo a tempo a irrelevância da resposta.

O que você faz? Ele pergunta para mudar de assunto. Não faço muita coisa. Gosto de jogar xadrez. Comecei criança e ainda não parei. Foi meu pai quem me ensinou.

E, no entanto, se a festa continua, a noite nos revela. Estou a ponto de me pronunciar sobre os sorrisos da menina linda quando volta a outra e se senta muito perto de mim. Desculpa, tive que ir ao banheiro. Cheiro forte de perfume e maquiagem retocada. Risco zero, recompensa medíocre. De dentro dos braços dela eu me despeço do sorriso da menina linda, que agora é indefinido e triste. Puta merda. Era melhor ter levado um fora.

Pronto. Terminei. Confiro pela terceira vez o nome dela no espelho. Quando fiz a primeira tatuagem, o cara me disse que, se eu me arrependesse, depois podia fazer alguma coisa por cima. Agora não me diz nada.

Fico algum tempo sentado à mesa sem saber o que fazer. Meu pai, com o orgulho ferido, não me cumprimentou. Pego a caixa de madeira, para guardar as peças. Olho para a posição do tabuleiro uma última vez e vejo. Pálida. Uma casa de fuga para o rei dele. Meu sacrifício, uma tolice. A partida estava ganha para ele. Meu xeque-mate não passou de um sonho.

Saio para a rua com um plástico cheio de pomada enrolado no pescoço. As pessoas me olham de longe. Tento telefonar várias vezes. Profética, na caixa postal, a voz dela me diz – de um passado distante, quando ela ainda não me conhecia – que, quando eu estiver sozinho, precisando muito falar com ela, ela vai estar ocupada e não poderá me atender.

Sábado, Fevereiro 16, 2008

6 km


Até a hora que cansei de chorar no quarto e resolvi sair correndo. E o corpo, que costuma reclamar no terceiro quilômetro, hoje não queria parar. Quando a cabeça se esvaziou, foi bonito. De repente eu era coração, pulmões e pernas. Tudo funcionando, tudo muito vivo.
Resultado: nova marca (6km!) e mais velocidade. Nada demais, dirão os atletas por aí. Sedentário por toda uma vida, me orgulho.

E os meus músculos felizes celebram em coro.

Terça-feira, Fevereiro 12, 2008

Noite


Acordo assustado em Istambul. Ouço uma voz estranha no quarto. Minha mão se arremessa contra o escuro, agarrando-se aos lençóis vazios da cama. O alto-falante do minarete que se ergue sob a minha janela canta, chamando os fiéis para a oração do crepúsculo. Do terraço do meu quarto vejo o pôr-do-sol sobre o estreito. Do outro lado ficou a Europa.

Do que é que você está fugindo?, perguntou-me o turco sem bigode na travessia da balsa, depois de eu lhe ter contado um pouco da minha viagem. Foi a mesma pergunta que meu irmão me fez no aeroporto em São Paulo, minutos antes de eu embarcar para Lisboa.

Acordo assustado em Barcelona. Ouço uma voz que sussurra. Minha mão se arremessa contra o escuro e agarra um pulso frágil que, de leve, balança meu ombro. Ela não consegue dormir. Trovões outra vez? Não. Sob os lençóis, ela está infeliz. Pensando em voltar para o Brasil. Eu não a amo. É ela quem diz. Eu mesmo jamais diria que sim nem que não. Eu tenho outras mulheres. Outra vez é ela quem diz. E está certa. Ela é, de longe, a mais importante. Sou eu quem diz. Ela não me ouve. Está cansada. Cansada dessa vida de mentira. Fazer mágica na rua e trabalhar de garçonete. Viajando feito dois ciganos. Rumo ao Leste. Cada vez mais longe de casa. O que seria uma vida de verdade? Voltar para o nosso país. Casar e viver um para o outro. Ter filhos e uma casa nossa. Não concordo. Isso eu não digo. Apenas me calo. Ela suspira e se cala também.

Algumas noites sonho com minha mãe. Um pouco antes de morrer, ela me chamou para perto da cama dela no hospital e tentou me dizer alguma coisa. Não conseguiu. Talvez porque fosse impossível. Pegou com sua mão a minha e me disse, com os olhos turvos, que eu estava a cada dia mais bonito. Ela estava a cada dia mais feia. Isso eu não disse. O rosto chupado e um bigode branco sobre os lábios, trêmulos por causa da doença. Sob os lençóis, ela estava sozinha. A única que não se conformava com a própria morte. Médicos, enfermeiros, familiares, todos conformados. Eu mesmo, no fundo, conformado. A única morte com a qual não me conformo nunca é a minha.

Acordo assustado em Roma. Silêncio opaco no quarto. Minha mão se arremessa no escuro e agarra um pulso inerte, que não reage. Preciso me livrar desse corpo. Pensamento mágico. Alguém que acabei de assassinar e alguém com quem acabei de fazer sexo são quase sempre a mesma coisa: um estorvo. As palavras que vieram em seguida, entre o sono e a vigília, não sei se apenas as pensei ou se cheguei a pronunciá-las. A melhor mágica da minha vida seria fazê-la desaparecer. Dizem que sentir remorso por um pensamento maligno é sinal de infantilidade, porque é na infância que acreditamos que nossos pensamentos são onipotentes. Por isso devo tê-las pronunciado, porque sinto remorso e arrisco dizer que resta pouco de criança em mim. Não sei ao certo. Nunca mais tive certeza de nada.

Tateio pela noite num sono espesso. Os lençóis que a cobrem são uma trama infinita onde me perco tentando afastar paredes de pano que se acumulam sobre mim e me aprisionam. Acordo assustado e não sei onde estou. Ouço o ruído do tecido roçando na minha barba. Minhas mãos e pés se arremessam convulsas em direções aleatórias. O lençol jogado flutua no ar como um fantasma, revelando uma cama vazia sob sua queda ensaiada. Abracadabra: ela não está mais aqui.

Você não se sente sozinho? Outra vez o turco sem bigode da balsa. Impossível não se sentir sozinho numa cama de hospital da qual se sabe que não se vai sair. Isso eu não digo. Falamos de futebol. Tiro do bolso meu baralho e, enquanto peço a ele que escolha uma carta qualquer, faço com que escolha o ás de espadas. O grasnar das gaivotas me desconcentra um pouco. Vagarosa, a balsa segue rumo ao Leste.

Domingo, Fevereiro 10, 2008

Carnaval & New Look



Resolvi variar. Aceitei o convite da minha irmã e fui, com ela e dez amigos seus da faculdade, passar o carnaval em Caxambu, sul de Minas Gerais.

Carnaval de rua, com música ao ar livre e gente dançando embaixo da chuva que não dava trégua. Sobretudo axé. Uma que outra marchinha. Músicas da moda.

Divertido estava - bebi bastante e fiz muita mágica para atônitos (e bêbados) espectadores, dancei, cantei, pulei - até ser eu mesmo o alvo de uma mágica estranha e intensa que, se, por um lado, acabou com o meu carnaval, por outro me libertou de outras prisões e me fez sentir coisas que há tempo não sentia.
Enfim... melhor não falar mais disso. Já basta ontem minha irmã ter me chamado de "emo" por conta dessa história. =P
Algumas imagens da viagem - já aviso que foram poucos e desinteressantes os momentos em que me lembrei de tirar fotos:


No carro, a caminho. Eu sou a orelha no volante. Minha irmã no banco do passageiro. Atrás: Laura, Luana e Keila.


Ainda no carro. Lambança.

Engraçado, né? Quer saber o quê? Pergunta para elas.

Não é ilusão de ótica. É com o MEU Bicycle que estão jogando truco.

Sem comentários...


Minhas quatro lindas passageiras.




Anos 70...


Porra! Esqueceu o desodorante de novo!?


Sóbria.


Resolvi mudar. Nova fase na vida merece novo visual e o que pode ser melhor que um piercing e duas novas tatuagens nessas ocasiões?





"Mundus Vult Decipi": O mundo quer ser enganado.

"Memento mori": Lembra-te de que morrerás.

E aí? O que vocês acharam?

Sexta-feira, Janeiro 18, 2008

Segue a vida...



Segue a vida é o nome do novo CD do Falamansa, em cujo show fui na quarta-feira com a minha irmã. Dançamos um pouco. Divertido.

Hoje almoço com meu ilustríssimo amigo Julián Fuks (grande orelhista do meu Hiato), que teve a bondade de comentar meu continho aí abaixo. O Julián é um ótimo ouvinte. Sempre me despeço dele com a sensação de que falei demais.

E a vida segue mesmo, nada a fazer. Hoje as pessoas saem; fico em casa de quarentena.

Quinta-feira, Janeiro 17, 2008

3 segundos



Ontem ouvi no rádio que, em média, umas trinta mil pessoas se suicidam por dia.

Sentados no balanço do parque, não consigo tirar os olhos das pernas dela. Minha amiga parece triste. Na verdade, acho que sou eu que estou. Não tenho certeza. Tive que aprender a mentir. Tão bem que, às vezes, fico na dúvida. Ela não precisa desses truques.

Por que você está falando disso agora? Ela me pergunta olhando para cima, procurando alguma coisa no céu.

Não sei. Sonhando por vezes me excito de um jeito inverso. Sinto vontade.

Ela tenta um tom casual. Sua voz treme um pouco. Muita vontade?

Assim, assim.

Seus dedos percorrem, nervosos, as correntes laterais do balanço. Leva uma mão à boca e começa a roer as unhas. A outra mão tenta esticar um pouco a saia sobre os joelhos, com frio, ou vergonha. Talvez tenha notado os meus olhos. Sinto calafrios. Ao longe, ouço o som de uma sirene.

Se você se matasse, acabavam os sonhos. Ela arrisca. Sempre olhando para cima.

Acabava também a vigília.

Ficamos algum tempo em silêncio. Minha boca está seca. Procuro no céu o que ela está olhando e dou chance a ela de me olhar também. O sol ofusca minha vista. Ela segura minha mão e aperta com força os meus dedos. Dói um pouco.

Me diz pelo menos o seu nome.

Não dá mais tempo. Agora você já vai acordar.

Minha avó abre a porta do quarto. Levanta. O almoço está pronto.

Na cozinha, a luz do sol machuca meus olhos. Você está ouvindo essa sirene?

Não estou ouvindo nada. Estou velha. Já não ouço bem. Você não vai comer mais?

Não estou com fome.

Também: passa o dia todo dormindo. Não vai procurar emprego hoje?

Hoje não.

Você precisa arrumar alguma coisa, meu filho. Eu não vou estar aqui para sempre. Você não está mais jogando. Está?

Ontem eu sonhei com o vovô.

Ela repousa a colher sobre o prato e me encara. Sonhou o quê?

Nada demais. Sonhei que ele estava vivo. A gente estava conversando.

O que foi que ele disse?

Não me lembro.

Tinha quinze anos e uma vontade permanente de estar sozinho. Já naquela época passava pelo menos metade do dia dormindo. Gostava de chorar e de me masturbar. Sonhar sempre foi o que eu soube fazer melhor.

Ela encosta a cabeça no meu ombro. Já estamos juntos há tanto tempo... Acho que vou sentir saudade de você. Sentados no sofá, olhamos as pessoas dançando na pista. Por que você não vai dançar? Por que não bebe e tenta se divertir um pouco? Quase com raiva, olho para ela. Você não precisa ficar bravo. Já conversamos sobre isso, lembra? Alicerçar um chão de pequenos prazeres... Permaneço quieto. Às vezes tenho a impressão que você se acha melhor do que todo mundo.

Pode ser. Algumas vezes também me acho muito pior.

Quase trinta anos. E continua vivendo com se tivesse quinze.

Quinze anos passam como se fossem três segundos. Você também não mudou.

Mudamos ambos. É você que não quer assim. Depois de sonhar, seu maior talento é mentir.

É possível. Meu avô também dizia isso. Foi ele quem me levou para minha primeira mesa de pôquer. Estou com frio. Você está ouvindo essa sirene?

Acho que faz parte da música. Ela olha o relógio. Está na hora, querido.

Anda, levanta daí, Soneca. Um segurança sacode meu braço. Uma luz estroboscópica arde nos meus olhos. Já estamos fechando. Devo parecer confuso, porque ele ri de mim. Então você vem para a balada para encher a cara e ficar dormindo no sofá?

Os caminhos de casa são muitos. Algumas vezes o excesso de liberdade me dá um pouco de vertigem. Minha garganta está seca. Meus sonhos galopam comigo em cada rua escura que percorro. Graxa lubrificante de desejos de ferro. Tenho frio. Em suas casas, as pessoas dormem. Não sonham. Tenho medo. Se sonham, não é como eu. É preciso saber e esquecer ao mesmo tempo. È o que faço melhor na vida.

Vem! Preguiçoso! Vem dançar comigo.

O corpo dela se movimenta ao ritmo ensurdecedor de uma sirene. Ela não percebe, a princípio, o sangue que escorre dos seus poros. Quero dizer a ela e não consigo. Minha garganta está seca demais e os meus lábios tremem de frio.

Vem dançar comigo.

Louca. A pele dela se desmancha.

Verifica as pupilas de novo.

O sangue agora espirra e forma um barro cor de rosa na areia, de onde, deitado, vejo o sol acendendo e apagando, queimando minha retina.

Ainda estão respondendo.

Quero dizer a ela e não consigo.

Você acha que ele agüenta?

Vem! Vem dançar!

Não sei, não. Perdeu muito sangue.

Quero dizer a ela que não fui eu, que não foi culpa minha.

Ontem ouvi no rádio que, em média, umas trinta mil pessoas se suicidam por dia.

Meus sonhos galopam comigo em cada esquina escura dessa cidade. Uma a todo intervalo de três segundos.

Terça-feira, Janeiro 15, 2008

Agradecimento

Ao Ferdinando Martins, por suas generosas palavras sobre meu livro Hiato em resenha publicada na G. Online.
Já o convite para pousar nu, tive que recusar por motivo de timidez e ortodoxia heterossexual.

Mágica

Para o bem da arte do ilusionismo e para desespero das pessoas próximas, voltei a praticar.
Em breve, profissional.

Duelo


Na praia Brava, em Florianópolis, eu os vi lutar até a morte.

Sábado, Janeiro 05, 2008


Budismo moderno

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!


Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!


Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;


Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

Augusto dos Anjos

Segunda-feira, Dezembro 31, 2007

No Albergue do Pirata.


Coisas estranhas acontecem aqui, no Albergue do Pirata. Pessoas preguiçosas como eu, que têm dificuldade para acordar cedo, que costumam achar que praia é ficar bebendo no quiosque, pulam do beliche às 7:30 da manhã e vão nadar no mar, caminhar na praia e tomar sol.
Primeiro dia, melancólico, resolvi mudar e sair correndo. Fui parar dentro do mar gelado dessas praias do sul da ilha. Gostei. Virou vício. Às vezes vou nadar no mar duas vezes ao dia. Meu corpo não gosta da água fria. Reclama. A cabeça fica em silêncio e o resto flui numa dinâmica diurna à qual não estou acostumado.
Maravilha então. Devagar, tudo melhora.
Em breve posto umas fotos.

Segunda-feira, Dezembro 24, 2007

Big bad santa lebouski!


A idéia hoje é misturar os filmes Bad Santa e Big Lebouski e, sozinho aqui no meu apartamento, encher a cara de white russian's.

Drinks & Cocktails Alcoólicos


Bar Glass : Highball

White Russian

Bar Glass : Highball

White Russian é feito com vodka, licor de café (Kahlùa ou Tia Maria) e leite integral. A diferença entre White Russian e Black Russian é o leite integral.

Servir em : Highball Glass como na figura acima
Tipo : Bebida Alcoólica
Porções :1

25 ml vodka
25 ml Tia Maria ou Kahlùa
25 ml leite integral
6 cubos de gelo quebrados

  1. Coloque metade do gelo numa coqueteleira. Despeje a vodka, Tia Maria ou Kahlùa e o leite. Agite bem.
  2. Coe em copo(s) alto(s) com o restante do gelo.
  3. Sirva com um canudo.
    DICAS:
  • Tia Maria é um licor sabor café derivado de uma receita jamaicana.
  • Kahlùa é também um licor sabor café.

Quarta-feira, Dezembro 12, 2007

Novembro



O mês de Novembro foi meio maluco. Cheio de coisas acontecendo. Como estou com preguiça de escrever, transformo logo isso aqui num fotolog e deixo as imagens falarem por mim.

Essa primeira foto ali em cima foi tirada no dia do arremesso do meu livro hiato, no Canto Madalena. Compareceram amigos e pessoas queridas. Mais fotos desse evento na seqüência:


















Amigos.





Casal de amigos.




Eu e a moça da dedicatória...




Um leitor satisfeito...



... dois leitores satisfeitos!



Dedicatória para a moça da dedicatória...




Dedicatória pros berolas.



Quem disse que literatura (não) dá dinheiro?




Luiz me falando mal de alguém...



Bom, depois do dia do arremesso, teve campeonatinho. Franco Montoro. Fiz 4.5 em 7. Razoável, né? Para maiores informações, entre no site da FPX e procure pela equipe FARJ nas tabelas.
Fotos:




A implacável equipe FARJ!


Na seqüência, aconteceu mais uma edição do famoso Churrasco do Thor.
O deus do trovão devia estar zangado comigo porque eu só me fodi.
Quebraram meu relógio de xadrez e também quebraram o vidro do meu carro e levaram minha carteira, com grana e documentos. Uma merda.
Churrasco do Thor só dá Viking. Pilhagens, música e bebedeiras. Se fosse mulher, talvez rolasse sexo também! =)
















O churrasco é nórdico, mas a gente gosta é de samba: o pessoal do clube do choro.



Porco trapezista!



Os filhos de Thor.



Aí, semana retrasada teve noite de dedicatórias (hoje me advertiram, com razão, que "autógrafos" pode soar pedante) lá em Pinda, no Blue Beers:







Esperando os convidados.


Dedicatória.


Essas duas aqui foram minhas professoras de ciências e de história no ginásio.

Caixa e mágico.


Aí acabei imendando e fiquei a semana passada inteira em Pinda. Assisti a dois excelentes filmes do Ettore Scola: Um dia muito especial (Una Giornata Particolare) e Casanova e a revolução (La nuit de Varennes).




















Por fim, na última sexta-feira, eu e o Carlos demos muita risada numa imperdível noite trash em Taubaté com a inestimável presença do herói da nossa infância: Serginho Malandro.



Ufa! Acabei. Isso aqui ficou parecendo uma história em quadrinhos. =P

É isso aí. A festa nunca acaba. Agora tenho que ir lá terminar o Pamela do Richardson (livrinho xarope). Até mais.

Quinta-feira, Novembro 29, 2007

Azar.

É... falar de sorte com certeza dá azar.

Quarta-feira, Novembro 28, 2007

Sorte.

Tenho andado com sorte. É gostoso.

Sábado passado empatei, em uma simultânea de xadrez, com um mestre internacional. Para quem não sabe, um mestre internacional é um jogador bem forte, profissional.

Recebi alguns (poucos) comentários muito elogiosos de escritores sobre o meu hiato, um deles (hoje soube) possivelmente duvidoso.

Ah! Tem ainda um outro motivo para eu me achar com sorte. Mas esse eu não digo: pode dar azar...

Para os enxadristas curiosos por aí, na seqüência, a partida de sábado. A abertura foi a minha querida (espero que não soe estranho demais ter afeto por uma linha de xadrez) siciliana do dragão:



[Event "Simultânea"]
[White "Braga, Cícero"]
[Black "Godoy, Abilio"]
[Result "1/2-1/2"]
[ECO "B77"]
[Annotator "Godoy,Abilio"]
[PlyCount "53"]
[EventDate "2007.11.24"]
[SourceDate "2007.11.24"]

1. e4 c5 2. Nf3 d6 3. d4 cxd4 4. Nxd4 Nf6 5. Nc3 g6 6. Be3 Bg7 7. f3 Nc6 8. Qd2 O-O 9. O-O-O Nxd4 10. Bxd4 Be6 11. Kb1 Qc7 12. Bb5 {Com a idéia de Ba4, seguido de Bb3. Na minha opinião, um plano passivo para as brancas.} Rfc8 13. Ba4 Qa5 14. Bb3 Bxb3 15. cxb3 b5? {Melhor seria Tc6} 16. Bxf6 Bxf6 17. Nd5 Qxd2 18. Nxf6+ Kg7! 19. Nh5+ Kh6 20. Rxd2 gxh5 {Aqui fica claro por que b5 foi um erro.} 21. Rd5 a6 22. Rc1? {Melhor seria g3, impedindo h4; ou a4 forçando uma resolução na ala da dama.} Rxc1+ 23. Kxc1 Rc8+ {Tg8 ou h4 eram provavelmente melhores.} 24. Kd2 h4! {Com a idéia de Tg8.} 25. a4? {Permite Tg8. Melhor seria e5!} Rc5? {Melhor seria Tg8. Aqui ofereci empate. Oferta recusada.} 26. axb5? {Melhor seria Txc5.} axb5 27. Rxc5 {Empate oferecido por Cícero. Aceito.} 1/2-1/2


Terça-feira, Novembro 27, 2007

De volta à ativa.

É isso aí, meus caros leitores imaginários. Hiato publicado, estou reativando esse blog depois de uma breve reforma, que mais simplificou do que alterou. Bem-vindos de volta.

Segunda-feira, Maio 22, 2006

Ando ocupado.



Perdoem-me, amigos, por esse longo silêncio. Ando ocupadíssimo com projetos de mestrado, estágios e outras burocracias. Nas horas vagas, não tenho tido saco para escrever e ando praticando truques com cartas para desestressar. Quando tiver uma folga, escrevo e posto alguma coisa.

Terça-feira, Maio 02, 2006

Metal, mulher, metralhadora (versão atualizada e inédita).

Observação importante: o texto abaixo é fictício, assim como seu narrador. O responsável pelo blog não concorda com as opiniões expressas pelo narrador do conto que envolvem racismo e outros tipos de discriminação.




Porque tu está ligado, velho.[1] Tem só três esquemas que eu curto à vera. Um é o Som, o Metal – única arte que presta E quando eu digo metal, no true, não estou falando de qualquer metal. Não estou pensando no sonzinho miado desses evil metaleiros de peruca, que se acham muito fodas só porque põem distorção na guitarra e cantam fino que nem se soprassem a porra de uma flauta doce pelo cu. Ah, não. Quando eu falo em Metal, estou falando de coisa de macho sério, pode crer? Com culhão para sangrar a garganta invocando o cramulhão e encarar o chifrudo de frente, poder do mal, só é, a coisa feia.
Depois, meu segundo barato é boceta. Motivos óbvios. Em chupar, no principal, é o que mais me amarro. Cair de boca. Esfregar minha cara numa xana melada, que nem se fosse entrar para dentro. Retorno ao útero, sei lá. Por esses tempos tenho trabalhado muito numa técnica em que lambo a rosca da mina ao mesmo tempo em que introduzo o nariz na xota dela, ou acaricio com ele seu grilo. Coisa de gênio. Ah, mas tem que ver que boceta de mina paty ou cluber eu não chupo, que, puta merda, essas minas sem carisma que põem calcinha cor-de-rosa e vão para a balada ouvir poperô, para mim, era na base da cabeçada e do murro na boca, para largarem mão de serem frescas. As piranhudas.
Aí, tem meu terceiro tesão que é metralhadora. Não que eu tenha uma, nem mesmo vi de perto. Mas estou economizando para comprar. Na TV ou no cinema, é só um puto sacar uma metranca daquelas que eu quase me gozo todo na cadeira. A arma perfeita: a metralhadora, na medida certa. Poder da anarquia. Realiza: mais potentes que uma cuspideira, só os breguetes de explodir, tipo bomba, granada e míssil. O esquema é que, embora explodir os baratos possa até ser divertido, chega a ser quase impessoal, está me entendendo? Me diz, ah, quero que tu me diga qual é a porra da graça de se jogar uma bomba nuclear do alto de um jato militar. Está sacando agora? Tu mata um milhão de negos mas é que nem se matasse um milhão de formigas. Sem olhar nos olhos deles. Sem ver o sangue que derramou. Agora, vem cá, imagina tu pegar um travesti safado e nordestino, ou um preto pagodeiro e encher de bala o rabo dele, na rajada, ratatatá. Iurrú! A maravilha. É o que eu te digo, mano: se tu pega um inocente com uma merda de uma pistolinha ou um três-oitinho, tu não passa de um covarde assassino. Agora tu faz isso com uma boa metranca e tu é Deus, o soberano. Exagero true metal de poder de fogo. O bicho pega é de metranca.
Que nem. Tivesse eu com uma debaixo do braço quando vieram os cabeçudos sem carisma e eu queria ver eles se engraçarem. Se não pude fazer nada, é porque os putos me cataram desarmado e desprevenido, no meio da anarquia. Os safados. Que os covardes me pegaram de pau, que era eles virem no mano, coisa de homem, que iam só aprender, com o meu muay thai na adolescência deles, a lidar com metal warrior de verdade. Ah, não. Homem que é homem pega é no mano, um contra um, punho com punho, faca com faca e tiro com tiro. Igual eu com os patos. Para tu ver. Quando eu saía no meio da madrugada para enfrentar os evil nadadores de peruca, podia bem tirar vantagem de ser um animal racional e levar uma faca, um estilingue, uma pedra que fosse. Qual é? Eu sou é true metal. Que nem samurai, a gente tem nossa honra, pode crer? Levava só era uma lanterna, um barbante e a caixa de sabão em pó na mochila, para depois. O fatality.
Porque a minha picuinha com os bicudos vem de muito tempo. Na real, de quando eu era moleque. Quase seis meses de escolinha de natação e nada. Quer dizer, nadar, nada. Nada de nadar. Só engolindo água naquela merda daquela piscina. Só fodendo meus olhos no cloro, sem conseguir relaxar nem dominar o medo que me puxava sempre para baixo. Tem coisa que Satanás não permite. O chifrudo. E os patos lá, na lagoa do parque, nadando que nem se fossem os donos da coisa. Os canalhas. Me humilhado. Um bicho estúpido daquele me apavorando. Os putos dos patos. Como é que podia? Ah, mas os malandros. Descobri o segredo deles um dia. Os sacanas. Foi numa aula de ciências. A maravilha que é o estudo. Não me esqueço nunca da professora falando que os patos produziam no rabo um treco gorduroso que espalhavam com o bico pelo corpo, deixando as penas impermeáveis. Ah, a inspiração anarquista. Uma semana depois, eu lá, me atracando de madrugada com um dos bichos, que consegui agarrar na beira do lago. Imobilizei o puto. Amarrei o pato com um barbante. Tirei da mochila a caixa de sabão em pó. Vamos tomar banho? Seu patinho feio e sujo. Lavei o bicudo na lagoa mesmo, ensaboando com capricho as sua penas. Quando terminei, desamarrei o animal e arremessei no meio da lagoa. Ah, o espetáculo. Vai, meu nobre, quero ver tu nadando no hard, cafajeste. Nada agora, cheater filho do demo. Sem trapacear é difícil, não é, seu bosta? A coisa linda. Ele caiu na água. Estranhou. Tentou boiar e não conseguiu. Desequilibrou. Afundou uma vez. Voltou à tona. Tentou se arremessar, mexendo as asas como se quisesse voar para fora. As penas encharcadas e pesadas. Caiu um metro adiante. Afundou. Ressurgiu. Afundou. Desapareceu. Ah, a beleza que é a ciência.
A anarquia. Terapia. Está ligado? Lava pato todo dia, que agonia. Puta merda. Para tu ver como rima é uma coisa escrota. Coisa de rapper, coisa de preto. Ou então de viadinho metido a poeta. Metal warrior só rima é só em inglês. Mas, os patos, uma vez por mês me dedicava àquilo. Numa dessas, mano, foi quando os cabeçudos. Imagina só. Eu lá, na maior, ensaboando o pato puto sem me preocupar com nhecas quando, do nada, me aparece a coisa. Sem barulho, nem porra nenhuma. Só uma luz forte para cacete, flutuando no ar, sobre o lago. E eu pensando que nem tinha cheirado nem tomado chá nem nada e o negócio ali, no real. É o demo, eu falei. É o coisa-ruim que veio trocar uma idéia comigo e é agora que o bagulho é feio e fedorento. Ah, mas antes fosse. Que mal tinha eu terminado de pensar aquilo e senti um puxão no meu corpo que me tirou do chão. Aí, me vendo daquele jeito, voando em direção a coisa, eu senti vontade de gritar, mas, assim, sem saber direto o quê, está ligado? Aí eu peguei e gritei iurrú, poder do mal, só é, o chifrudão.
A coisa se abriu e me puxou para dentro. Eu no meio de uma galeria e umas janelas de vidro. Os cabeçudos me olhando. Só aí que me caiu a ficha. Ou eu estou na mão dos marcianos, ou dos cearenses. Os paraíbas. Foi quando abriu uma porta e um cabeçudão de quase dois metros apareceu com um pedaço de pau. Chegou perto de mim e, sem cerimônia, nem muito prazer, me lascou uma paulada no lombo que me vez envesgar de dor. Ah, o baiano sem carisma.
Foi aí que eu saquei qual é que era. Os pederastas. O esquema era duelo. Que nem eu quando moleque. Pegava uma garrafa de refrigerante vazia e enchia de tudo quanto era inseto. Meus gladiadores. Depois chacoalhava aquilo e ficava só vendo a treta que dava. Muita treta, vixe! Os bichos se comendo. O vencedor ganhava a liberdade. Ali, naquela arena, o cabeçudão tentou descer a segunda paulada, mas ah, meu muay thai na adolescência dele. Desviei e sentei no peito do bicho uma joelhada que deu com ele no chão, meio desmaiado. Toma, corno. Peguei do chão o pau e comecei a castigar as carnes do safado. E agora, paraíba? Levanta daí, imprestável. Tua mãe não é homem, viadinho. Tua mãe depila o sovaco com a foice, tanga frouxa. Ah, mas os deceivers. Dessa vez vieram em três e ainda me pegaram por trás, na paulada bruta. Os caras não têm honra. Duelo é o caralho. Os caras queriam era me linchar. Sei lá. Só para me foder. Vai entender. Não tinham outra coisa melhor para fazer, os zé-bocetas. Vamos arrebentar esse aí e está decidido. Me quebraram inteiro, os cabeçudos. Sem chance de me defender. Depois o bagulho se abriu e eu, já quase apagado, despenquei de lá de cima. As coisas que a gente se lembra com a morte diante dos olhos. Pensei naquela história do sapo que foi para o céu dentro da viola do urubu e que, quando atirado de lá de cima, vinha gritando para uma pedra aqui na terra te afasta se não te esmago. Pois é. Eu caindo e vendo que ia cair em cima de um pato, ali, na sua nadadinha noturna. Ao contrário do sapo, eu não gritei porra nenhuma. Só vim pensando a coisa linda, que eu morro, mas levo esse bicudo comigo para o inferno.
Depois disso, eu não me lembro. O breu. Fui encontrado na manhã do dia seguinte. Fodido. Na beira do lago, com uma pneumonia e um monte de ossos quebrados. Me levaram para o hospital. Sobrevivi porque Satanás quis. Na real, que nem sei, assim, com certeza, o que aconteceu mesmo de verdade.
Pois é. No mais, estou me recuperando. E economizando para comprar minha cuspideira. Ah, mas o ócio. Enquanto estive internado tive uma nova inspiração anarquista. Coisa de gênio. Me diz só se tu acha que os sebosos dos sapos conseguem nadar com uma pedra amarrada no corpo deles, hein? Não é que é? Nadar assim, no levinho é fácil, malandrões. Daqui uma semana volto na lagoa e recomeço. Se, dessa vez, os pulhas dos cabeçudos aparecerem, é como eu já disse, o bicho pega de metranca.
[1] Transcrito de uma gravação acidental de um depoimento transmitido por uma rádio pirata.

Sexta-feira, Abril 21, 2006

Os trapaceiros (fragmento - Parte 1, capítulo IV)

Para os meus amigos que ainda não sabem: estou tentando escrever um romance. Por enquanto, ele se chama Os trapaceiros. Comecei a pensá-lo na minha viagem para a Turquia e nesses últimos meses, ele vem ganhando forma no papel. Submeto aqui, a implacável crítica dos visitantes, o último capitulo da primeira parte do romance.


Não sei por que você está me pedindo para te contar essas coisas.
Eu também não sei.
Quanto mais isso. Afinal, você estava lá quando aconteceu. Não é possível que tenha se esquecido.
É, eu estava. É claro que não esqueci. Eu sofri muito naquela noite.
Então por que você quer relembrá-la?
Não quero relembrá-la. Quero revivê-la de outro jeito. Por outro ângulo. Quero que você me conte, como se eu nunca tivesse estado lá.
Não entendo. Para quê?
É assim, mais ou menos. Agora – agora que a Milena morreu – quero poder contemplá-la uma vez a partir da imagem formada não pelos meus, mas pelos teus nervos ópticos.
Sei.Você devia era parar de gastar tempo comigo e virar poeta, garota.
Garota? É por isso que eu te adoro, Emílio. Você é o único que ainda me chama de garota. No mais, sou poeta desde que nasci. Só não sei escrever poemas. Não. Pode parar com isso. Não boceja, por favor. Eu detesto quando você faz isso. Droga. É só eu falar duas coisas sobre mim mesma que você começa com isso. Você é um chato megalomaníaco, sabia? Odeio esse teu tédio ostensivo, esse teu desprezo cínico pelos outros.
Bem-me-quer, mal-me-quer.
Chove na cidade. Nenhuma novidade na tua crueldade.
Como nos velhos tempos, hein? Bem-me-quererá-outra-vez?
Pára de rir, por favor. Eu estou falando sério. Você não passa de mais um auto-admirador-de-prórpio-umbigo. Se às vezes você não fosse tão fofo – mesmo em tão raros momentos – juro que eu ia sentir vontade de te tacar daqui de cima, via janela, seu bobo. Trapaceiro de semitigela. Pára de rir, por favor, e começa a contar de uma vez.
Então fecha a tagarela e me escuta. É com os buracos de ouvir, não com o de reclamar. Assim, quietinha, com as orelhas. Eu e você na ponta superior da estrela do topo da árvore de natal, se lembra? Apogeu é como se diz, do relacionamento.
Era.
Levo você para jantar. Comida mexicana – preferência sua. Sentados à mesa. As mãos dadas por sobre. Dois pares de retas paralelas formam o quadrilátero dos nossos olhares. Figura geométrica cerrada e regular. Ouvimos a voz do nosso lado. Oi. Boa noite. Querem ver o cardápio?
Foi.
Eis que o quadrilátero se desmancha num hexágono absurdo, vesgo, estroboscópico, instável. A garçonete era a Milena. Parada de pé. Olhando para a gente com o mesmo nosso susto. Era muita mentira para ser verdade e, na entrecoisa, ali estávamos os três, reunidos de novo, como tinha acontecido dois anos antes, naquela boate em que eu te surrupiei dela.
Você não me roubou de ninguém. Eu não sou uma coisa, Emílio.
Destino. Como não podia não ser, meus intestinos se agitam feito uma rumbera louca. Pomba-gira nas entranhas. Intenso para caralho, o instante se dilata. Os três corados. Nossa! Que surpresa! Como vocês descobriram que eu estava trabalhando aqui? Foi ela a mais corajosa. Nós não. Nem sabíamos. Então? Coincidência. Não acredito. Verdade. Você ali, de lado. Encolhida miúda. Deixada de fora do retângulo novo, que era meu e da Milena. Só nosso. Quadrilha, quadrilátero. Fechando, querendo virar quadrado. Para virar retângulo de novo, na outra direção. Línguas sobrecolocadas. Virando e revirando – dois hambúrgueres numa chapa. Você criança chorando fácil, como se te tivessem tirado o doce. Quadrilha, quadrilátero. Garçonetes e clientes só de olho, disfarçado. Línguas sobrencimadas. Sem-vergonhas. Virando e revirando – dois lutadores de jiu-jitsu. Você chorando, até porque quem não chora não mama na tequila e preenche a cara para agüentar o tranco. Você partindo – sonho sem coleira, direto virar sabão. O gerente – ay ay ay muchachos – rosnando entre os caninos uma bronca rancorosa de burguês mexicano da Bahia. Milena, definitivo-poderosa, dizendo para ele enfiar no rabo. Eu e ela saindo dali – falange, flanginha, falangeta: tudo junto e misturado numa fusão de reencontro. Alforriados. Sacanas. Renascidos.
E, no princípio, era o amor. Romance de novela de cavalaria. Princesa triste, aprisionada e príncipe valente – enfrentando os maiores dragões do mundo para merecer o sorriso dela. Aquela pureza purê-de-batata de dizer eu te amo e dormir um nos braços do outro um sono lasso de começo ou fim de mundo.
Depois, com o tempo, foi o despertar daquela coisa outra, que dorme dentro da gente feito um câncer, estilhaço dentro da granada. Que se esconde no aroma acre dos nossos sovacos. Avesso e fúria. Aversão à estabilidade. Entropia. Desejo instintivo de ferir e destruir. Agressividade canalizada num prazer sexual cada vez mais disputa e medo. Para valer, medo. E os nossos corpos vorazes, insaciáveis se consumindo sôfregos em penetrações vaginais, anais, nasais, viscerais; até atingirem o ponto em que já não se bastavam e saírem juntos à procura de outros corpos, nas boates, nas casas de swing, nos puteiros.
Aportávamos juntos, Milena e eu. Nosso jogo primitivo. Olhávamos, carnívoros, as pessoas nas prateleiras e escolhíamos, às vezes cada um para si, outras vezes um para o outro. Éramos escravos. Não havia recusa possível. Homem, mulher, atraente ou não. Abordávamos a pessoa designada e a seduzíamos. Nosso jogo corrosivo. Éramos escravos um do outro e não tínhamos o direito de contrariar o desejo alheio. Milena me quisesse ver enrabado por um cara e me via. Eu quisesse o que quisesse, ela obedecia. Sem limites, sem recalques.
Por fim, veio o fastio. E, negativo obstante, nos amávamos ainda. Sempre juntos, por surpresa maravilhada, como um casal de velhos, comprimidos pelo tempo e já quase reduzidos a um backup de lembranças. Ela disse que estava grávida. Perguntei se o filho era meu. Ela não respondeu. Na rabeira de seis anos juntos, pegou suas coisas e saiu. Como tinha feito dezessete anos atrás.
Só que, dessa vez, eu nunca mais a veria. Milena perdeu o filho com oito meses de gravidez. Parece que o moleque (era um menino) se enforcou com o cordão umbilical. Para mim, na real, ele se suicidou. Ontem foi a vez da mãe, numa overdose de cocaína.
E agora, Emílio? O que nós vamos fazer com a segunda parte das nossas vidas?
Agora não sei. Mas me lembrei de mais uma coisa sobre a minha infância.
Que coisa?
Foi que muitos anos depois da morte do seu Valdir, eu descobri que, na época em que me sentava ao seu lado, ele tinha acabado de ter um grave derrame cerebral e tinha ficado meio retardado. A moral é que ele não estava me apontando nada. Estava balançando as mãos no aleatório, o infeliz.
E o que isso tem a ver?
Estou velho, minha querida. Descobri que o tempo sempre vence. Quando penso nisso e me recordo que naquela época eu acreditava que seu Valdir era um sábio que me mostrava os tesouros da minha rua – enquanto que hoje só consigo pensar nele como um velho debilóide – compreendo melhor as armas do tempo. Percebo o que foi que ele tirou de mim, no passar de todos esses anos.

Domingo, Abril 16, 2006

Ontem à noite.


No Ó do borogodó. Sociedade seleta e boa música. Dançar, um pouco, não muito, já que um tantinho apertado. Aconchegante, porém. Televisão de cachorro. Cerveja, isso sim, muita. E aí é que foram os coalas, os pobres que, adeptos de uma dieta pouco nutritiva não alcançam. Também por lá as abelhas, na minha língua enrolada de embriaguez e sapiência que relatava, precisa, de oito a nove machos. A leviandade fácil da tristeza e da alegria, essas senhoras nada, nada austeras. Sanduíche de mortadela com queijo - a novidade de invenção montesina. Blind date. Vodka cokinski - a sensação de origem mineira que, às vezes, adia o cumprimento dos deveres naturais. Sobremesa?


Quinta-feira, Abril 13, 2006

Les liaisons dangereuses



Estou lendo agora. Alguém aí já leu? Demais. Uma das leituras mais prazerosas que já fiz na via. Também, novidade... os clássicos nunca decepcionam.

Sábado, Abril 08, 2006

rio amarelo



Oi[1]. Sou eu. Não se preocupe. Está tudo bem. Ainda estou vivo, aqui, solitário no meu exílio. Espero que esse seja mesmo o seu número. Minha memória tem andado uma porcaria nesses tempos. Estou te ligando apenas para te contar que há vinte dias chove sem intervalo na cidade. Não me lembro mais como é a cara sol. Além do mais, precisava falar com alguém. As pessoas daqui são muito simples e não consigo ter com elas uma conversa de verdade. Por algum motivo, eles têm medo de mim. Da janela vejo apenas nuvens escuras e a água que despenca. Moradores atravessam a praça com seus guarda-chuvas. Parecem inquietos. Alguma coisa pesada no ar além da umidade. As ruas têm estado cheias de religiosos fanáticos. Eles passam os dias e as noites andando em círculos. Berrando frases de efeito sobre o juízo final. Na terça-feira passada todos os ratos da região se reuniram em assembléia e decidiram por unanimidade abandonar para sempre esse lugar. Estou brincando. Isso dos ratos foi brincadeira. Uma piada da gente daqui. Eles têm um estranho senso de humor. Mas o que eu te disse sobre a chuva é verdade. Eu não mentiria sobre uma coisa dessas. Sobre os fanáticos também é verdade. O hotel em que estou hospedado fica de frente para a praça e os gritos deles me acordam às quatro da manhã. O dono me disse que estão fazendo turnos. Se revezando para não deixar ninguém dormir. Um inferno. Fizeram a mesma coisa ano passado, durante a seca. Naquele tempo, embora já tivesse vindo para cá, eu ainda andava escondido pelo mato, com medo de que alguém me identificasse. Fez um calor amaldiçoado e ficou muito tempo sem chover. Ouvi dizer que de tão desidratadas, algumas pessoas se desmanchavam em cinzas com o vento. Como aquelas pequenas flores, como é mesmo que elas se chamam? Que a gente colhe quando é criança e sopra e elas se desfazem em um montão de pedacinhos brancos. Ano passado foi a seca e agora, o dilúvio. Quem está aí? Que estranho. Tive a impressão de ouvir alguém mexendo na maçaneta da porta. Do que eu estava falando mesmo? Sim. Eu falava da chuva Ainda ontem, para assegurar a locomoção dos habitantes, seu Narciso mandou trazer da capital uma porção de canoas. Também prometeu encomendar inúmeros bueiros para serem implantados nas casas e edifícios. Um homem muito bom, esse Seu Narciso. Talvez eu ainda não tenha te dito: ele é o dono da cidade e da gente daqui. Um senhor generoso e triste que passa os dias circulando pelas ruas numa gôndola. Sua única ocupação é tentar resolver os infnitos problemas desse lugar. Dia desses passou aqui pelo hotel para me conhecer e me dar boas vindas. Conversamos. Ele estava, como sempre, vestido todo de negro. Terno preto, camisa e gravatas pretas, sapato e chapéu pretos. Até o guarda-chuva é preto. Seu rosto pálido-fosforescente brilhava sob o céu encoberto. Suspirava a intervalos regulares, como se dependesse dos suspiros para poder raciocinar. Perguntei a ele se trazia luto pela morte de algum parente. Não me respondeu. Só suspirou e fez com a mão um gesto vago e circular que parecia apontar para a cidade em volta dele. Me contou muitas coisas a respeito das pessoas daqui. Alguns dos problemas que, com freqüência, ele tem que resolver. Como quando começaram os difamatórios boatos lobisômicos a respeito do padre Antônio. Olhou para mim, suspirou e disse esse povo é muito inocente, jovem. Eu, que inventei todos eles, sou um homem de pouca imaginação, de maneira que era mesmo impossível que eles me saíssem deveras criativos. No mais das vezes, são gente muito pacata, e, no entanto, uma vez por mês, são atacados por um tédio implacável que logo se transforma em pura sede de sangue. Basta estarem desocupados algumas semanas seguidas para reincidirem sempre no mesmo absurdo passa-tempo. Conspiram e escolhem um infeliz qualquer. Então apontam o dedo e, sem mais, clamam com toda a força. Lobisomem! Imagine você. Acreditar numa coisa dessas em pleno século XXI. Então perseguem o coitado com tochas na mão e o capturam. Brota neles uma crueldade incrível que não sei de onde vem. Praticam as mais impiedosas torturas. Depois queimam-no vivo. Quase impossível fazer qualquer coisa para impedi-los. Eu bem que tentei encomendar da Inglaterra uns tantos monstros da literatura insular do século XIX. Pois soltei os bichos no mato e nunca mais os vi. Não devem ter se adaptado ao clima. Você sabe como é. Além disso, o povo daqui não é muito afeito a forasteiros e novidades. Como eu disse, são gente de pouca imaginação. Pois não é que numa dessas vezes cismaram de perseguir justo o coitado do padre Antônio. Um homem-santo, o padre. Não fui eu que o inventei. Longe de mim tamanha pretensão. Assim como você, o padre chegou depois. Veio sozinho, em missão catequizante. Eu não podia permitir que a minha gente o matasse daquela maneira tão cruel. Procurei-o. Disse-lhe que fosse até a praça e berrasse que Deus estava muito irado com todos. Ele fez como eu pedi e, enquanto ele gritava com os moradores, lancei ao céu todos os raios e trovões que tinha guardados no cofre do meu escritório. Funcionou. Eles ficaram com medo e pediram, de joelhos, perdão ao padre. A única coisa que eu não previ foi que aquela minha intervenção ia causar todos esses desequilíbrios no clima. A seca, o dilúvio. Não sei muito bem o que aconteceu. Foi alguma coisa com os raios e os trovões que eu lancei ao céu. Terminada essa história, acompanhei seu Narciso até a porta. Ele prometeu voltar um dia para me contar outras. Engraçado. Agora que pensei nisso, tenho a impressão de que disquei o número errado. Será? Talvez esteja deixando essa mensagem na caixa postal de alguém que nem conheço. Na verdade pouco importa. Já não sei com certeza com quem era mesmo que eu queria falar. Pode ser que tenha discado um número aleatório. Quem seria capaz de dizer a essa altura? De novo. Ouvi alguém mexendo na maçaneta do meu quarto. Passos no corredor. Quem pode ser? Sou o único hóspede desse hotel e cético demais para acreditar em fantasmas. Os cigarros apagados se acumulando no cinzeiro. A chuva e os gritos que vem lá de fora. Pois é. Depois que seu Narciso me visitou naquele dia, fiquei curioso sobre ele. Quis saber por que suspirava tanto. Como não há nada que fazer aqui e como já havia terminado de reler, pela segunda vez, todos os livros que trouxe na mochila, resolvi deixar o hotel e conversar um pouco com as pessoas. Nessa ocasião, ouvi muitos boatos a respeito do velho da gôndola. O dono do hotel, por exemplo, me disse que ele adquiriu o hábito de usar preto e suspirar depois que a esposa dele deixou a cidade com um revendedor-de-mulheres-casadas-e-putas-em-geral que passou por aqui há muitos anos. O Narciso é um pré-potente com delírios de grandeza, continuou ele. Outro dia teve a pachorra de me dizer que era o dono da cidade, que havia sido ele quem a tinha inventado e todos os seus habitantes, você acredita? Aquele homem tem uma imaginação! Passou a juventude lendo romances e foi nisso que deu. Além do dono do hotel, teve também o padre Antônio, que me defendeu que o motivo verdadeiro do luto foi a morte da filha de seu Narciso, desfeita pelo vento durante a seca. Quando lhe perguntei sobre o episódio dos boatos lobisômicos que haviam recaído sobre ele, o padre apenas sorriu. Então o Narciso ainda conta essa história? Por fim, conversei com tia Chiquita, secretária de seu Narciso. Ela me segredou que na verdade seu patrão é um homem muito feliz, que, em sua imensa generosidade, apenas finge estar triste, para que todos os outros moradores daqui, por infelizes que sejam, sintam-se, ao menos, mais felizes do que ele. Pobre homem, suspirou a velhinha – talvez pelo hábito adquirido com a convivência com o patrão – criou todos nós, e ninguém se lembra mais. Está sempre cuidando da cidade, e ninguém agradece. Tia Chiquita, aliás, é a secretária mais dedicada que já conheci. Você precisava ver o que ela fez ontem pelo patrão. Eu mesmo não acreditaria se não estivesse presente, espiando de um canto escuro. Estavam todos reunidos no shopping center que seu Narciso mandou trazer da capital. Ele tinha convocado ali uma reunião urgente com todos os moradores, porque tinha descoberto, por fim, depois de muitos anos estudando um manuscrito tupi, qual era o nome da cidade e pretendia comunicar a eles em ato solene. Só que você sabe como é que é, não é? Juntou aquele povo todo na praça de alimentação do shopping e começou a falar e a conversar e a cumprimentar o amigo que fazia tempo que não via. Seu Narciso apenas suspirava, esperando o silêncio para poder tomar a palavra. Nada do silêncio acontecer. Foi quando tia Chiquita não agüentou mais aquilo. Subiu vários lances de escada rolante até o último andar. Abriu bem os dois braços e começou a berrar para todo mundo ouvir. Disse que era uma vez um homem que se chamava Narciso Ele era muito bonito, mas vivia sozinho numa floresta e nunca tinha visto o próprio rosto. Um dia, ele se deparou com sua imagem refletida num lago e se apaixonou pelo reflexo. Narciso se atirou na água e começou a afundar e afundar e afundar, até que chegou no oceano. Uma vez no fundo do mar, ele olhou em volta e achou tudo esplêndido e resolveu ficar por lá. Mas com o tempo foi juntando uma crosta no corpo dele, igual a que aparece nos cascos dos navios. Ele, que era o homem mais belo do mundo, ficou horrível e confuso, porque já não sabia mais quem ele era. Vocês estenderam? Ele não sabia mais quem ele era! Percebendo que ninguém tinha prestado atenção no seu discurso, a pobre mulher mudou de tom e disse senhoras e senhores tenho o orgulho de apresentar agora, diante dos vossos olhos, um espetáculo por vós nunca dantes contemplado e se atirou lá de cima gritando putaqueopariu. Despencou cinco andares e se estatelou em cima de uma mesa da praça de alimentação. Na realidade, ela não teve tempo de completar a imprecação, que foi interrompida no putaqueopá. Não obstante, o riu ficou, sem dúvida alguma, subentendido e sonoramente representado com elegância simbólica pelo partir-se da mesa sob o corpo cadente de tia Chuiquita. Só então as pessoas se calaram e olharam aflitas para o semblante triste de seu Narciso. Ele suspirou e disse que o nome da cidade era Rio Amarelo. Todo mundo foi abrindo os guarda-chuvas e saindo devagar do shopping. Seu Narciso, mais triste do que nunca, acompanhou com os olhos a debandada dos moradores. Em seguida deixou também o shopping, arrastando pelo pé o cadáver de tia Chiquita, como se ele fosse uma boneca de pano. Você ouviu isso? São eles gritando lá fora. Vai ver o povo tem mesmo razão e seu Narciso não passa de um pobre lunático, se divertindo feito criança com suas marionetes. Será impressão minha ou estarão gritando lobisomem? Parece que sim. Quem será o infeliz dessa vez? Mas espera um pouco. A lua cheia só vem amanhã. Estarão desenvolvendo uma postura preventiva? Bem, por lunático que seja, não gostei do jeito como ele me encarou. Será que ele desconfia de alguma coisa? Sim. Não resta dúvida: estão gritando lobisomem. Vêm vindo em direção ao hotel. Será que estão atrás do dono? E se... puta que o pariu e se estiverem atrás de mim? Não. Não pode ser. Viu só como eu fico assustado por nada? É a paranóia de todo fugitivo. É claro que não estão atrás de mim. A maioria deles nunca me viu. Mas não foi isso mesmo que o seu Narciso disse? Que eles não gostam de forasteiros? Puta merda. Se os canalhas cismam que sou eu o lobisomem, aí fodeu de vez. Desculpe o linguajar, estou nervoso. É melhor eu dar um jeito de fugir daqui. Espera aí que eu vou dar uma espiada pela janela. Caralho. Eles cercaram tudo. Puta que o pariu. Preciso pensar em alguma coisa bem depressa. Por que ainda estou falando nesse maldito telefone? Preciso desligar essa merda e sumir daqui, mas não consigo. Você agora é a única companhia que eu tenho, percebe? Não quero parecer melodramático, mas, pelo jeito que a coisa vai, isso que você está ouvindo podem ser minhas últimas palavras. Merda. Eles estão aqui dentro. Por que seu Narciso não me protege, como fez com o padre Antônio? Tudo mentira? Tudo invenção? Será que ele também está pensando que? Ouço os gritos deles. Tudo um sonho? Estão subindo as escadas. Um lugar para me esconder, rápido. Fodeu. Agora não dá mais tempo. Estou encurralado. Meu Deus! [longo silêncio, ruídos de fundo: uma respiração ofegante, gritos, gargalhadas, som surdo de uma porta sendo arrombada, mais gritos, os ruídos se distanciam] Puta que o pariu. Você não vai acreditar. Espera só um pouco. Deixa eu respirar. Pensei que dessa vez eu estivesse morto. Espera aí. Deixa eu ir ver se eles já foram embora. Parece que sim. Você não vai acreditar mesmo. Eles pegaram alguém no quarto ao lado. Pensei que estivesse sozinho no hotel, mas pelo jeito não estava. Então foi isso. Os passos que ouvi há pouco. A pessoa mexendo na maçaneta devia ser o infeliz se confundindo de porta. Caralho. Vai ver que eles também se confundiram. Pegaram o homem errado. Podem acabar voltando. É isso. Fique sabendo que para mim chega dessa cidade. Agora mesmo junto minhas coisas e volto para o matagal. Lá pelo menos estarei mais seguro. Prefiro ter que conviver com aqueles ingleses excêntricos do que correr o risco na mão desse povo.
[1] Transcrito de uma mensagem de voz deixada na caixa postal de um telefone celular.

Inauguração.



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